Por João Victor Dias, Graduando em Sociologia pela Universidade de Brasília e membro do grupo de pesquisa Ciências Sociais Latino-Americanas
Na gestão pública, é comum medirmos o progresso em toneladas de concreto ou quilômetros de asfalto. Mas quando olhamos para os anúncios recentes do Governo do DF, especificamente o aporte de R$ 195 milhões em obras no Gama e o salto histórico de 743% no orçamento da Secretaria da Mulher em 2025, a análise sociológica precisa ir além da engenharia.
Precisamos perguntar: quem mora dentro dessas obras?
Para quem esse orçamento foi desenhado?
Os dados do PDAD 2024 nos dão a resposta exata. O Gama não é apenas uma coordenada geográfica; é um território majoritariamente feminino (53%) e negro (60,8%). E, diferentemente de outras regiões, é um território que precisa do Estado para viver.
Para entendermos a urgência desses recursos, basta fazermos um breve comparativo técnico com o Lago Sul. Lá, o PDAD nos mostra que 88,7% da população possui plano de saúde privado; o Estado é uma rede de segurança secundária. No Gama, a pirâmide se inverte: 65,9% da nossa população depende exclusivamente do SUS. Isso significa que, quando o governo reforma a UBS 7, ele não está apenas pintando paredes, mas está garantindo a sobrevivência de quase 7 em cada 10 moradores que não têm para onde correr se a porta do posto fechar. No Gama, política pública não é complemento; é alicerce.
Se a dependência do SUS mostra a fragilidade econômica, a história nos mostra a força social. A verdadeira infraestrutura que manteve o Gama de pé nas últimas décadas não foi feita de tijolos, mas de gente. Foi feita pela força de trabalho e pelo afeto das mulheres negras. Basta olharmos para as histórias resgatadas recentemente pelo Cecon Gama Sul. Mulheres como Maria Amélia Nunes, Zita Gonçalves e Maria de Lourdes da Silva não são apenas "moradoras", são também as arquitetas sociais da nossa região. Em tempos de escassez, foram essas mulheres negras que criaram redes de solidariedade, cuidaram das crianças da vizinhança e garantiram que a comunidade sobrevivesse. Elas foram, na prática, a "seguridade social" do Gama antes que o Estado chegasse.
Portanto, o salto no orçamento da Secretaria da Mulher (de R$ 10 milhões para R$ 86,9 milhões) é o reconhecimento dessa dívida histórica. Esse recurso é o que garante que a neta da Dona Zita não precise apenas "sobreviver", mas possa "viver". É o que permite que trajetórias como a de Luana Nazareth, uma mulher negra, cria do Gama e hoje recrutadora de talentos no Google, deixem de ser a "exceção milagrosa" para se tornarem a regra. Investir na mulher do Gama é garantir que o talento local tenha creche para os filhos, ônibus na porta e saúde digna para continuar produzindo e inovando.
O Gama vive um novo momento. As máquinas na pista e a reforma dos prédios públicos são bem-vindas e necessárias, especialmente numa cidade que depende tanto do serviço público. Mas a maior obra que está sendo feita é a valorização humana. Ao cruzar os dados de saúde e raça do PDAD com as histórias de vida que vemos nas ruas, a conclusão é técnica e humana: o Gama tem rosto de mulher negra. E, finalmente, o orçamento público parece ter aprendido a olhar nos olhos dela.
Referências Bibliográficas
AGÊNCIA BRASÍLIA. Investimento em políticas públicas para as mulheres cresceu 743% nos últimos quatro anos no DF. Brasília: Governo do Distrito Federal, 8 mar. 2025. Disponível em: https://www.agenciabrasilia.df.gov.br. Acesso em: 31 jan. 2026.
COMPANHIA URBANIZADORA DA NOVA CAPITAL DO BRASIL (NOVACAP). Investimento de R$ 195 milhões leva infraestrutura e qualidade de vida aos moradores do Gama. Brasília: GDF, 11 ago. 2025. Disponível em: https://www.novacap.df.gov.br. Acesso em: 31 jan. 2026.
DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDES). História de três idosas negras do Gama vira documentário: Filme "Condão" valoriza raízes e vivências na comunidade. Brasília: SEDES, 25 dez. 2022. Disponível em: https://www.sedes.df.gov.br. Acesso em: 31 jan. 2026.
INSTITUTO DE PESQUISA E ESTATÍSTICA DO DISTRITO FEDERAL (IPEDF). Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada – PDAD-A 2024: Relatórios Administrativos do Gama e Lago Sul. Brasília: IPEDF, 2024. Disponível em: https://www.ipe.df.gov.br. Acesso em: 31 jan. 2026.