As casas da Shis guardam histórias que moldaram o início do Gama. Antes da cidade ter o formato que conhecemos, as primeiras famílias chegaram para ocupar as casas da Shis. Eram pequenas, simples e improvisadas.
Na casa de Maria Lindineide Vassalo, conhecida como Neda, a vida acontecia apertada, mas cheia de afeto. A família do casal José Vitorino Leite e Hilda Vassalo, ocupava o pequeno espaço com dez pessoas, sem contar os agregados que apareciam e ficavam por meses. Para criar divisões, improvisavam com uma cortina ou um pedaço de madeirite. "Era um em cima da cabeça do outro, mas cabia todo mundo", afirma Neda.
As casas tinham um charme próprio. Roseiras, grama e plantinhas. Muitas famílias colocavam cerquinhas de madeira ao redor do lote. Em frente, apenas uma estreita faixa de asfalto. Algumas pessoas faziam entradas de vermelhão, que precisavam ser enceradas para brilhar, um ritual que deixava a frente das casas com cara de cuidado e orgulho.
Neda lembra que alguns amigos do Setor Oeste chamavam as unidades de “casas de pombo”. Pois era o que dava para ver de lá. Mesmo assim, com todas as dificuldades, ela guarda memórias profundas. Os carnês de pagamento não chegavam à porta. Ficavam no Bar Caratinga, onde funcionava o posto da antiga Shis. Era ali que a comunidade se encontrava, resolvia pendências e se reconhecia.
As crianças viviam na rua. Carrinho de rolimã, ônibus de madeira, poeira e muita risada. Às 19h, as mães chamavam todos para dentro e a rua se calava. As festas também não precisavam de convite. “Quando alguém ligava o som, já aparecia gente de tudo quanto é lado”, lembra Neda.
Projeto de Paulo Hungria
O arquiteto Paulo Hungria, em maio de 1960, desenvolveu a planta urbanística da cidade do Gama, no formato de colmeia, dividindo-a em cinco setores: Norte, Sul, Leste, Oeste e Central. Dentro desse projeto maior, surgiram as casas da Shis, que, no fim da década de 1960, deram forma aos primeiros conjuntos habitacionais da região.